A Maldição

Amanheceu o dia e os olhos continuavam ardidos. Os cantos deles, avermelhados e as pálpebras, inchadas. As lágrimas varriam as faces e marcavam -fartas- o chão. Encontrava-se sentado à beira da cama, semi-nú, acorcundado, de pose desanimada. Assim se percebia a muito mais que uma noite. Faziam dias, semanas, meses... nem se lembrava mais do tempo. Provavelmente o mesmo havia parado.
O olhar virado ao nada e a mente à correr em círculos repetidos e infinitos... a cegueira, a ação e a reação, a cegueira, a ação e a reação, a cegueira, a ação e a reação... incessantes. Era sua maldição. Fadado estava à ela por suas próprias mãos.
A dor. Essa sim, se fazia companheira. Cada vez mais dolorida, sofrida, aguçada.
E sentia morrer por essa dor. Sentia-se esvair da vida. Estava seco. Como se as chagas dos tropeços impensados estivessem a lhe queimar o corpo dormente. Buscára o álcool como alívio, na tentativa de ter as idéias deturpadas, mas o seu efeito de torpor apenas evidenciava ainda mais sua frustração, seu sofrimento.
Buscava até mesmo a insanidade. Isso porquê a loucura da consciência não lhe fora reconhecida como tal. Para se ter uma idéia, o melhor de tudo passou a ser ter méritos por tanto sofrer.
Tamanha a dor, que lhe absorvia a fome, a sede, as idéias. Dela e para ela vivia desde a queda.
O dia seguia e junto dele, o seu pranto contínuo, íntimo, lascivo.
A consciência: navalha afiada na pele das lembranças do erro. Corrente limitadora de rumos, de avanço, de progresso. Clausura e tortura não conhecidas de antes, mas íntimas de agora.
Sofria de arrependimento, de remorço profundo e sincero. E nem eles eram garantia de perdão algum. Nada mais acontecia desde então. Vivia morto.
Mas as lágrimas persistiam como molho àquele prato difícil de engolir. Mas ele repetia mesmo assim.
A noite caiu e o foco se mantinha o mesmo. A queda estava lá, para onde quer que olhasse.
Não havia ânimo para perceber a vida que seguia lá fora. As estrelas haviam se apagado no negro da escuridão. Não percebia nem mesmo o turbilhão que se formava na tempestade. Na chuva que se juntava às suas lágrimas, numa moldura triste para o seu momento.
Madrugada adentro e toda dor se evidenciava ainda mais. Não descansava os olhos que mais pareciam vazados à jorrar a salubridade daquela tristeza. E o pensamento não fugia dali. Nem mesmo à lhe recordar os tempos de alegria e de sonhos. Até estes, eram momentos de angústia agora.
O coração sofria novo baque... mais uma vez, amanheceu.

O Foragido

Sentia-se vigiado. A cada passo, era observado. Era colocar o pé fora de casa e sua agonia começava: alguém estava à sua espreita. Talvez, a lhe acusar ou então a lhe apontar o ato falho. E sabia da verdade. Estava consciente do porquê daquele medo, só não vislumbrava aquele quem condenava seus passos de forma tão apavorante.
Era mesmo digno disso ou daquilo. E vivia assim, sendo perseguido.
Haviam horas em que tentava fugir daquela situação. Acabava que, só saindo nas sombras da noite, virava um foragido. Qualquer luz, qualquer farol já era suficiente para apavorá-lo.
Suas atitudes só confirmavam as suspeitas daqueles olhos desconhecidos em que sentia visá-lo incessantemente. Ele não conhecia o dono desse olhar, mas ele estava lá, o tempo todo. Incansável.
Bastava ameaçar o pescoço no portão e já sentia um frio que lhe percorria a espinha. Sentia o risco de ser novamente perseguido. E se vigiava.
Era um alívio entrar em casa. Trancar a porta e verificar -por alguns instantes- através da cortina, que aquele que o perseguia, ficara lá fora. Pelo menos, por hora.
Quando sair se fazia inevitável, caminhava de cabeça baixa, olhos no chão e o coração em frangalhos. Nenhum sorriso, nenhum cumprimento, nenhum aceno.
Mesmo à rua deserta, lá ia ele amedrontado, pulando de sombra em sombra, por trás das árvores, pelos cantos das calçadas menos iluminadas, nas ruas mais perdidas. Caminhadas curtas e atalhos sombrios.
Um dia, teve a certeza de estar completamente só e conseguiu perceber, por trás da escuridão, na esquina mais esquecida, o seu observador implacável. Descobriu quem o perseguia tão raivosamente: suas lembranças.
E decidiu nunca mais sair, nem mesmo de dentro de si.

'Você vai me seguir', do Chico Buarque

Gosto muito de música. Não um estilo específico, um rótulo. Gosto mesmo de música boa.
Costumo dizer que -pra mim- música é um estado de espírito. É a mais pura verdade.
Dependendo do momento, uma música marca aquela fase, aquela situação. Quando mais agitado, quando mais tranquilo, mais carente, mais carinhoso, mais desejoso, mais saudoso...
É claro que tenho preferências: rock, mpb, house... mas isso não é nada.
De acordo com o momento, gosto de ouvir uma mesma música seguidas vezes, por vários períodos, perceber os detalhes da harmonia, da letra, do que o autor quis dizer, o que poderia estar pensando ou querendo passar...
'Você vai me seguir' -do Chico Buarque- é a bola da vez, atualmente.
Como tenho ouvido essa música, me deliciado com ela...
Ela tem um clima 'passional', de proibição/submissão, como um bom romance policial ou um caso de Nelson Rodrigues. Pelo menos, é o que eu sinto ao ouvir os arranjos da música.
Depois, a letra parece contar a história de um homem que encontra sua 'vítima conivente', 'consentida' e nela se realiza em desejos impuros, mas também 'amorosos'(?). Uma mistura louca de amor e ódio. Inexplicável aos alheios.
E com o andar da letra, aquela relação doentia e mútua vai evoluindo, e as posições mudam de lado. Enquanto o dominador segue por um caminho -que se deixar enganar, se deixa 'cegar', a vítima vira algoz, numa assimetria que só a inferioridade permite agir.

Você vai me seguir aonde quer que eu vá
Você vai me servir, você vai se curvar

Você vai resistir, mas vai se acostumar
Você vai me agredir, você vai me adorar
Você vai me sorrir, você vai se enfeitar
E vem me seduzir
Me possuir, me infernizar

Você vai me trair, você vem me beijar
Você vai me cegar e eu vou consentir
Você vai conseguir enfim me apunhalar
Você vai me velar, chorar, vai me cobrir
e me ninar

Após o 'fim' dessa dor toda, parece que ela, apesar de toda sua traição, se sente infeliz com o fim de seu dominador. Muito intrigante, muito agonizante.
O que seria esse 'apunhalar'? Um crime? Uma traição? Fica o mistério...
E quando ele diz que 'vai me velar' e depois 'cobrir e ninar'... Confunde tudo novamente. Esse velar seria relacionado a sepultar o amor? A guardá-lo escondido nas entranhas do coração? Se libertar da insana relação?
A música, em certa parte, conta com as vozes do MP4. Bom demais. Tanto quanto a voz curta de Chico. Vai saber o que se passa na cabeça desse gênio?
No fim, as palavras se misturam e o 'me ninar', vira um 'menina'.
Simplesmente perfeito.
Quem ficou curioso, deveria ouvir.
Quem já ouviu, devia ouvir novamente, sob nova ótica.